Os olhos de Clarice estavam pesados, e o som da água pingando na janela do hospital parecia cantar uma melodia suave que a embalia, chamando-a para o mais profundo oceano de sonhos. Estava aconchegada — ou melhor, o mais confortável possível em uma cadeira de hospital — lutando contra o sono. Quando suas pálpebras finalmente se fechavam, vinha o medo de não acordar, de perder a chance de ajudar sua avó. Ou pior… perder seu último suspiro.
Foi um baita susto! Clarice estava na livraria, na parte da frente de sua casa, organizando alguns livros, quando se dirigiu pelo corredor atrás do balcão para tomar o café da tarde com a avó. Ao chegar à cozinha, a encontrou sentada à mesa, mas de uma forma completamente diferente do habitual.
Sua avó, Onília, estava inquieta. As mãos tremiam levemente e seus olhos — normalmente vivos, cheios de uma expressão travessa, como os de quem nunca deixava de brincar, de contar piadas e histórias fantasiosas — agora estavam perdidos. Como se algo estivesse fora do lugar.
Clarice, ao se aproximar e perguntar se ela queria bolinhos de chuva, percebeu, imediatamente, que algo estava muito errado. Sua avó não conseguia falar. Apenas fazia sons abafados com os lábios, como se quisesse chamar por ela, mas sem forças para se comunicar. O rosto da avó estava pálido, sua respiração curta e arrastada. Clarice a segurou pelos ombros, sentindo um frio incomum.
— Vó, o que aconteceu? Está tudo bem? — perguntou, tentando manter a calma, mas seu coração estava batendo acelerado, ameaçando saltar pela boca.
A avó não reagia. Seus olhos estavam fixos no vazio, sem foco, e parecia que ela lutava para entender onde estava. Clarice, em pânico, percebeu que sua avó estava tendo um colapso repentino. A avó, que sempre fora tão enérgica, agora parecia tão frágil, tão distante.
O rosto da avó já estava arroxeado, e a dificuldade para respirar se tornava alarmante. Ela ainda tentou dizer algo — talvez um nome, talvez uma lembrança — mas as palavras não saíram. Clarice a confortou, apertando suas mãos, mas sabia que algo muito grave estava acontecendo, algo para o qual não estava preparada.
Quando despertou, ainda com o coração acelerado, percebeu que havia adormecido novamente. Estava de volta ao quarto do hospital, e sua avó, surpreendentemente, parecia mais estável. Clarice respirou fundo, tentando acalmar a própria ansiedade. Um alívio passageiro percorreu seu corpo, suficiente para que pensasse em si mesma pela primeira vez desde que chegara.
O estômago roncou, lembrando-a de que precisava se alimentar. Com passos lentos, levantou-se e dirigiu-se à cantina do hospital, levando consigo o livro de Pedro Nava. Abraçou-o contra o peito como se as palavras contidas ali fossem um refúgio, um pequeno tesouro capaz de afastar o tédio e a tensão que ainda a envolviam.
— Boa noite — disse a jovem atendente, que não desgrudava os olhos do celular. — O que deseja?
— O que você recomenda para alguém faminta demais no meio da noite? Esqueci de me alimentar hoje — respondeu Clarice, tentando parecer mais gentil do que realmente se sentia.
— Todos estão. Digo, cansados e famintos. No momento, temos sanduíches naturais — disse a atendente, com um sorriso sem muita energia.
— Não peça isso! — disse o médico, aproximando-se com um sorriso leve. — Não vai te saciar e, a essa hora, você ainda vai sentir mais frio. O ideal é algo bem quentinho, como um empadão e um café. Confie em mim, já provei tudo o que essa cantina tem de melhor.
Ele se virou brevemente para a atendente, mantendo o tom amistoso:
— Tudo bem, Laís? — perguntou o médico, sorrindo.
Laís, corando, respondeu:
— Ah, sim! Tudo ótimo, doutor Rafael! O mesmo de sempre?
— Por favor, querida. E para minha amiga…? — perguntou Rafael, olhando para Clarice.
— Clarice. Acho que vou querer o mesmo — disse ela, dando um suspiro cansado.
— Quer se sentar comigo? — perguntou Rafael, com um sorriso gentil.
— Por que não? — respondeu Clarice, aceitando o convite.
Ela se acomodou na cadeira, observando-o com atenção.
— É sempre assim tão calmo por aqui? — perguntou, tentando distrair-se da tensão que ainda sentia.
Rafael deu um sorriso cansado, mas acolhedor.
— Sim e não. Ou é 8 ou 80. Ou não acontece nada, ou temos todos os casos possíveis e poucos médicos de plantão. Às vezes você tem que sair correndo do seu descanso, outras vezes consegue realmente descansar. Depende muito do dia. E você, trabalha com o quê?
— Tenho uma livraria — respondeu Clarice, sorrindo de leve.
Enquanto falava, ela não conseguiu evitar prestar mais atenção em Rafael. Havia algo nele de cativante, embora difícil de definir — não apenas a postura confiante ou o jeito descontraído de falar, mas a combinação de suavidade nos traços com firmeza na voz. Com seus trinta e poucos anos, alto, ombros largos como se esculpidos à mão e cabelo castanho escuro levemente desalinhado pela rotina puxada do hospital, ele exalava uma presença difícil de ignorar. Os óculos que usava conferiam-lhe um ar intelectual e, ao mesmo tempo, irresistivelmente charmoso, e o modo como os ajustava suavemente só reforçava aquela impressão.
Desconcertada, precisou se forçar a focar na conversa, tentando se distrair da maneira calma e segura com que ele falava — como quem parece ter o controle de tudo, exatamente o que ela sentia estar perdendo à medida que os dias de incerteza sobre a avó se acumulavam.
— Eu sempre me pergunto como seria trabalhar em um lugar assim — disse Rafael, passando o copo de café com um gesto leve. — Viver entre livros deve ser fascinante. Não deve haver um dia sem alguma descoberta.
Ela sorriu, o calor do café reconfortando-a por um momento, e se sentiu à vontade para falar mais. Não tinha muitos amigos para conversar de forma tão natural.
— É fascinante, sim. Cada livro tem sua história, um tipo de vida própria, sabe? Alguns ficam na prateleira por anos, outros ganham um novo dono e se tornam companheiros inseparáveis. Eu acho que é como se cada livro tivesse um pedacinho do autor e também de quem o leu.
Rafael inclinou-se para frente, interessado, e ela notou como seus olhos — castanhos e intensos — pareciam capturar cada palavra que ela dizia.
— Isso é… muito bonito — disse ele, com um sorriso suave. — Como se o ato de ler fosse quase um ato de carinho. Por um momento, me imaginei como um livro em uma prateleira, esperando por alguém que me abrisse e visse além das páginas… Eu até me pergunto, se eu fosse um livro, qual seria o título.
Clarice riu suavemente, sentindo a leveza que ele trouxe à conversa.
— Talvez “Mistérios não resolvidos” — brincou ela, com um olhar que tentava esconder a intensidade da emoção que ainda a consumia. — Ou “Entre o silêncio e as palavras”, por causa dessa necessidade de entender e se conectar, mesmo que a vida, às vezes, nos deixe em silêncio.
Rafael ficou em silêncio por um momento, observando-a, com a expressão suavizada pela sinceridade. Ele parecia refletir sobre as palavras dela. O ambiente, por um instante, ficou mais íntimo, e Clarice se pegou desejando que essa conversa nunca acabasse.
— Eu diria que o título seria “Passagem de Tempo” — respondeu ele, com um sorriso pensativo. — Porque, de alguma forma, todos nós estamos sempre em movimento, como páginas virando. E quando estamos diante de algo ou alguém que realmente importa, o tempo parece parar, não é?
Ela olhou para ele, sentindo uma conexão estranha, mas verdadeira, se formando.
— Eu sei o que você quer dizer. Quando você está com alguém importante, parece que tudo ao redor desacelera. Como se só aquele momento existisse, como se o resto do mundo fosse irrelevante.
Ele assentiu, os olhos brilhando com um toque de compreensão.
— É raro, mas quando acontece, é mágico. — Rafael se recostou na cadeira, seus olhos se suavizando ao falar, como se estivesse compartilhando um segredo. — Acho que todos nós procuramos esses momentos. E quando eles aparecem, mesmo em lugares tão inesperados como uma cantina de hospital, eles têm algo de especial.
Clarice engoliu em seco, sentindo um calor subir por seu corpo. A conversa tinha mudado de algo casual para algo mais profundo. Ela ainda não sabia se estava pronta para isso, mas, de alguma forma, se sentia segura.
— Eu… — ela começou, mas hesitou por um momento, olhando para o copo vazio na sua frente. — Eu realmente preciso de momentos assim, especialmente agora.
Ele a observou em silêncio, com um olhar que não era mais apenas o de um médico fazendo seu trabalho, mas de alguém que estava tentando entender os complexos caminhos da alma de outra pessoa.
— Sei disso. E estou aqui para te dar o que puder… mesmo que seja só um pouco de companhia e uma conversa simples — disse ele, seu tom gentil, sem pressa. — Talvez isso seja o suficiente para agora.
Clarice sentiu um sorriso tímido surgir em seus lábios, e por um instante, a dor de estar ali no hospital com a avó em risco parecia mais suportável.
— Eu agradeço. De verdade. — Ela olhou para ele, tentando não deixar que o medo transparecesse. — Obrigada, Dr. Rafael.
— Rafael — corrigiu ele, suavemente. — Dr. Rafael me faz parecer mais velho do que sou… Você é muito boa companhia, Clarice — disse Rafael, sem pressa. Ele ainda parecia relaxado, como se o hospital fosse apenas mais um lugar comum para ele, apesar de tudo o que acontecia ao redor.
Clarice sorriu, sentindo-se um pouco mais à vontade. “Eu também não sou tão difícil de conviver, se você souber como me distrair”, pensou.
O relógio já marcava altas horas, e o silêncio da cantina parecia envolver o espaço, tornando tudo surpreendentemente calmo para um hospital. Não havia pressa nem urgência, apenas o som distante de passos e máquinas ao longe. Quando terminou o café, ergueu os olhos para o relógio e sentiu a noite pesar sobre os ombros, lembrando-a de que era hora de voltar ao quarto.
— Acho que preciso voltar para o meu quarto — disse, soltando um leve suspiro.
— Claro — respondeu Rafael, levantando-se e observando-a por um instante. — Mas antes de ir… se precisar de qualquer coisa, estarei por aqui. Não é bom ficar sozinha quando as coisas ficam difíceis.
Ela assentiu, tomada por um misto de gratidão e tristeza. Levantou-se devagar, e ele a acompanhou até a porta, mantendo um sorriso discreto.
— Boa noite. Cuide de si mesma, sim?
— Vou tentar — ela respondeu, tentando sorrir por trás da tristeza que ainda a consumia.
Saindo da cantina, Clarice entrou no corredor silencioso do hospital. Luzes brancas frias, fixas no teto, iluminavam cada canto, refletindo nas paredes claras e no chão polido. O silêncio quase absoluto fazia os passos parecerem mais longos, mais pesados. Ela se sentiu um pouco mais leve depois da conversa e do café, mas não o suficiente para dissipar a preocupação que ainda carregava pela avó. Cada passo a aproximava do quarto, e, com ele, da inevitável vigilância que a noite exigia.
Quando chegou, o quarto estava silencioso, com a luz suave do abajur iluminando a cama onde sua avó descansava, parecendo mais tranquila do que no começo da noite. Clarice sentou-se na beirada da cama, olhando-a com um misto de afeto e receio. O peso da responsabilidade ainda a acompanhava, mas, por um breve momento, a conversa com Rafael tinha afastado um pouco os pensamentos mais pesados.
Ela suspirou, ainda com o livro na mão, e, ao olhar para a avó, murmurou para si mesma: “Eu vou fazer o possível. Só isso.” E, com um leve movimento, puxou a cadeira ao lado da cama, preparando-se para mais uma noite de vigília.